imagesCALYNVRO.jpeg

Capítulo 2 - Gerindo Racionalidades

INTRODUÇÃO

Ao longo deste capítulo, Clegg ressalta as importantes contribuições de Max Weber para o pensamento administrativo e a gestão das organizações, principalmente no que tange à burocracia. Dessa forma, a presente discussão abordará o modelo de organização burocrática, os tipos de racionalidade segundo Weber, bem como os conceitos de racionalidade pós-moderna, multiracionalidades,isomorfismo e embeddedness , importantes abordagens advindas da Teoria Institucional.
Max Weber em 1894
Max Weber em 1894

CONTEXTUALIZAÇÃO

Por que e para que é importante estudar este tema


No capítulo 1 , discutiu-se a origem e formação da idéia e do sentido de "gestão", com ênfase em instaurar racionalidade na organização, no estrito senso instrumental, de se aumentar eficência, por meio do controle, da padronização, da disciplina, do "one best way", proposta pela Escola Clássica de Administração. Obviamente, ao longo da evolução do pensamento administrativo, houve diversas críticas as práticas e idéias tayloristas, haja vista seu aspecto simplista e superficial. Novos pensadores e propostas surgiram com a Escola de Relações Humanas (Mayo), os estudos de Barnard sobre liderança e as contribuições de Mary Parker Follet em relação à democratização do poder nas organizações.
Para Clegg, apesar da importância desses escritores, o mais significante de todos esses pensadores seja Weber. O trabalho de Weber é de extrema relevância para entendermos as organizações: em primeiro lugar, deve-se citar o modelo burocrático, proposto por Weber para explicar e entender a realidade, que tornou-se dominante a partir do século XIX em todas esferas sociais - e não apenas restrito ao mundo dos negócios. Em segundo lugar, deve-se atentar ao tipo de racionalidade que orienta a ação social, isto é, os agentes sociais agem por determinada razão (racionalidade). É preciso, portanto, entender o conceito de racionalidade para, então, começar a entender as organizações. Dessa forma, "Gerindo Racionalidades" dará uma visão crítica e abrangente das diferentes formas de racionalidade, bem como explicar como um determinado tipo de racionalidade tornou-se dominante.

Uma das faces negras da burocracia (a "incapacidade treinada")
Uma das faces negras da burocracia (a "incapacidade treinada")

Burocracia



PRINCIPAIS CONCEITOS

Racionalidades
RACIONALIDADE INSTRUMENTAL

RACIONALIDADE SUBSTANTIVA
Elemento
Definição

Elemento
Definição
Cálculo
Projeção utilitária das conseqüências dos atos humanos.

Autorealização
Processos de concretização do potencial inato do indivíduo, complementados pela satisfação.
Fins
Metas de natureza técnica, econômica ou política (aumento de poder)

Autenticidade
Integridade, honestidade, e franqueza dos indivíduos nas interações
Maximização dos recursos
Busca da eficiência e eficácia máximas, sem questionamento ético, no tratamento de recursos disponíveis, quer sejam humanos ou materiais.

Julgamento ético
Deliberação baseada em juízo de valor (bom, mau, verdadeiro, falso, certo, errado etc), que se processa através do debate racional.

Racionalidade Instrumental
Podemos utilizar o desenho a seguir como um exemplo do pensamento humano sempre em busca do melhor custo benefício, segundo a racionalidade instrumental. O pensamento buscando a máxima eficiência faz parte do cotidiano das pessoas nas organizações, por isso a "máquina" como cérebro da pessoa, sendo, portanto, mais eficaz e eficiente.
Na racionalidade instrumental as ações são tomadas com base no cálculo utilitarista, nos futuros ganhos econômicos. Todas as alternativas são ponderadas e é escolhida a que proporcionará o maior ganho para o tomador da decisão. A charge abaixo ilustra bem um exemplo de duas pessoas que visam obter vantagens no futuro, cada uma à sua maneira.
charge_igreja_universal_fausto.jpg






Racionalidade Substantiva
É aquela orientada por valores, princípios, mérito, honra, autorealização. Diferentemente da racionalidade instrumental, ela não tem como finalidade o resultado ecônomico: as ações são tomadas de acordo com o que a pessoa acha certo, honrado, consoantes à sua tradição ou afetividade. Um exemplo prático desse conceito pode ser descrito na fase pela qual o Corinthians se encontrava (queda para 2ª divisão), em 2007 / 2008. Contudo, sua "fiel torcida" continuou a dar suporte e apoio ao time ("Nunca vou te abandonar"), não deixando de comparecer aos jogos (mesmo na série B, teve uma das maiores médias de público do ano) e estimulando, inclusive, o consumo de produtos referente ao Corinthians (camisas, blusas, etc.). Dessa forma, a ação dos torcedores não estava voltada para o resultado em si (estar na série A; ser campeão brasileiro, por exemplo), mas sim por valores que norteiam e unem sua torcida: a paixão pelo time.



Conflito entre racionalidade instrumental e racionalidade substantiva

Como pode ser observado através do filme "Diamante de sangue", por um lado as empresas estrangeiras exploradoras de diamantes na África, tomam todas as suas decisões baseadas na racionalidade instrumental, ao passo que se preocupam somente com os resultados econômicos esperados. Não se importam se estão explorando os empregados, separando-os de suas famílas e tratando-os como escravos. Essas organizações visam somente o lucro e por isso agem de forma a fria e calculista, mas são consideradas bastante eficazes pois a utilização de seus recursos são maximizados. Por outro lado, o pai africano quando é separado de seu filho, faz de tudo, inclusive esconder um valioso diamante que encontrara ao trabalhar para estas organizações internacionais para poder encontrar seu filho e ter sua família novamente, ação esta característica da racionalidade substantiva.


Racionalidades Pós-modernas

O que essas imagens dizem?

external image ilusao02.bmpexternal image quixote.jpg

O conceito de racionalidades pós-modernas tem como ponto central substituir a idéia da existência de uma única racionalidade, dando espaço a outras racionalidades, que muitas vezes são marginalizadas. Segundo, Clegg (2005), o pós-modernismo tece uma crítica (desconstrução) à história dominante e procura reencontrar aquelas outras histórias marginalizadas pelo modo dominante de se pensar. Nesse sentido, uma organização possui diferentes racionalidades que a orientam, uma vez que ela é formada por diversas pessoas com diferentes perspectivas de mundo e distintas narrativas. Todavia, usualmente tais narrativas marginais são tomadas como "irracionais", fato criticado pelos pensadores pós-modernos: não há uma racionalidade mais "racional", ou seja, aquela que se chama ou se adota como racional não é nada mais do que uma construção social do que se reconhece como racional. Pense nas imagens acima: existe alguma perspectiva mais certa ou errada?

Teoria Institucional
Crítica à Teoria Institucional: Estratégia

A crítica que se faz à teoria institucional é que a burocracia não pode ser vista como um sistema perfeito. A linearidade e racionalidade dessa teoria pode ser questionada a partir da avaliação do processo decisório, composto basicamente por:

[Diagnóstico] [Alternativas] [Solução]
Nesse processo, mesmo sendo um processo científico, a escolha das alternativas depende de valores e de opções pessoais.
Fazendo-se alusão ao capítulo 4 "O ambiente molda a estrutura organizacional", vemos que pela Teoria Institucional, as decisões partem de como a realidade é construída socialmente. Contudo, nas escolhas estratégicas, os gerentes levam inicialmente em conta os próprios anseios, e deixam de lado o macroambiente.

Crítica à Teoria Institucional nas organizações: os conceitos de Embeddedness e isomorfismo

Embeddedness

Para exemplificar o conceito de embeddedness, pode-se citar a antiga teoria do geocentrismo, cuja crença se baseava no fato de que a Terra seria o centro do Universo. Em consoante com a Igreja católica, detentora da ideologia dominante na época medieval, muitos acreditavam nessa idéia, considerada legítima, haja vista a dominação tradicional exercida por essa instituição (ver tipos puros de dominação no capítulo 1). Dessa maneira, estavam imersos nessa realidade socialmente construída pela Igreja e nem sequer questionavam-se quanto à veracidade dessa teoria (veja que o conceito de isomorfismo também está presente e como ele se relaciona com o embeddedness nesse exemplo). Aqueles que discordavam do geocentrismo, como aconteceu com Copérnico e mais tarde com Galileu, foram punidos, ainda que estivessem certos.
Assim, a idéia de embeddedness é de que a ação gerencial está imersa na ação social, ou seja, a ação gerencial é melhor compreendida se for considerada imersa na cultura, nos valores, entre outros. Novamente, o autor pretende mostrar que as organizações não são um máximo de racionalidade instrumental e que a ação dos gestores depende do que é culturalmente aceito e socialmente construído.

external image 716px-Cellarius_ptolemaic_system_c2.jpg
Cellarius ptolemaic system

external image galileu2.jpg
Ilustração do cientista Galileu Galilei

Isomorfismo
Alguns teóricos, como DiMaggio e Powell, tentaram entender o porquê das organizações adotarem mesmos procedimentos e práticas. Eles decidiram por chamar esse processo de "isomorfismo", que nada mais seria que uma série de práticas, atitudes e estruturas que as organizações consideram como aceitáveis para o campo em que atuam.
O isomorfismo é muito abrangente, pois está intimamente ligado a normas culturais tidas como positivas, tais como o trabalho em equipe e a capacidade de liderança. Não atender a essas determinadas normas ou expectativas, tidas como positivas, pode ser considerado pelo universo organizacional como sendo estúpido ou "desviante" de certa boa prática administrativa. A não aceitação ou falta de tolerância para com esses elementos "desviantes" é característico de culturas integradas, como pode ser visto no capítulo 8.
É citado que existem 3 tipos principais de mecanismos de transmissão do isomorfismo: o coercitivo, o normativo e o mimético.

Isomorfismo Coercitivo
Quando a adoção de determinada norma ou regra é imposta por alguma agência poderosa, como o Estado, temos um exemplo de isomorfismo coercitivo, ele está basicamente ligado ao que associamos como sendo requerimentos legais para que determinada organização tenha o direito de atuar em certo mercado. Vale ressaltar que certas práticas como o salário mínimo e programas para a inclusão de pessoas com necessidades especiais nas empresas não são adotadas, necessariamente, porque os gerentes das mesmas pensam que são boas práticas, mas sim porque são obrigados ou incentivados por lei para adotar tais medidas.




Poder coercitivo estatal

Isomorfismo Normativo
Esse tipo de isomorfismo funciona como sendo "uma métrica ideal", como é dito no texto de Clegg. Podemos contrastar esse tipo de isomorfismo com o coercitivo quando novamente utilizamos o Estado como exemplo. No exemplo anterior tínhamos o Estado como sendo a fonte do isomorfismo, nesse caso temos o Estado como um todo sendo o próprio exemplo do isomorfismo.
A maioria das pessoas nunca pára para pensar o porquê de todos os países do mundo, sejam eles formados por milhares de quilômetros quadrados e com muitos milhões de habitantes ou por apenas alguns quarteirões e com algumas centenas de habitantes, sejam organizados da mesma maneira. Uma maneira de explicar isso é porque o nosso Estado moderno está tão institucionalizado que mesmo quando ele não funciona (Ruanda, por exemplo) acaba por fortalecer ainda mais a crença de que esta é única métrica possível para organizar uma nação.world_flags_400.gif
Todos os países têm bandeiras (e hinos), um exemplo de isomorfismo normativo


Isormorfismo Mimético
Algumas vezes as organizações e seus gerentes querem, conscientemente, ser iguais a uma outra organização que seja referência de qualidade, eficiência e sucesso em algum determinado setor. Dessa maneira, esses gerentes tentam copiar as práticas e métodos da organização que eles consideram referência em seu campo de atuação (benchmarking). Um bom exemplo disso poderia ser a Universidade de Harvard que é muito admirada mundialmente e, em certa medida, dita a maneira como as business schools do resto mundo devem ensinar seus alunos. Mesmo a FGV chega a se utilizar do isomorfismo mimético nos inúmeros casos que importa de Harvard para os alunos resolverem.
Harvard-logo.jpg logo_eaesp.png
Alguma semelhança?

O isomorfismo mimético também é observado pelas forças, por exemplo, da destruição criativa e da propaganda, entre outras que atuam seduzindo as pessoas.
"Nada é orgânico, é tudo programado [...] Use, seja, ouça, diga"


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS RELEVANTES


CLEGG, KORNBERGER e PITSIS. Managing and organizations. An introduction to theory and practice. Sage Publications, 2005.